Terça-feira, Maio 26, 2009

Kafka vai à Floresta (Kafka goes to the Forest)

Mais um clássico da Epicentro Nervoso!

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Em novo endereço!

Agora como coluna do Epicentro Nervoso!

No site: http://www.danielmatos.com.br/blog!

A partir do dia 5 de janeiro, com atualizações 3 vezes por semana!

Quarta-feira, Novembro 12, 2008

O Homem de Ação (filme: O Homem de Ferro)

(Aviso para quem ainda não viu, eu detalho partes da trama do filme.)

Tony Stark não tem um vizinho tocando funk em uma de suas janelas, outro tocando forró na outra, e o esgoto passando por baixo de seu chão. Não! Nem passa o tempo vendo filmes, assistindo tevê, indo para lugares insólitos fazer coisas para outros, ou escutando outros lhe falando o completo inútil. Não! Ele acorda e faz armas. Ele acorda e expande a sua mente ao horizonte. Tony Stark é dono de seu mundo! Quando não está construindo a realidade ao seu redor, ele sai e a divide com o resto, aproveitando o meio tempo para saborear jovens jornalistas com um bom vinho.

Mas qual é o ponto de construir mísseis, se você não tem a chance de atirá-los? Qual é o ponto de comer pizza, escutando o último cd de Pete Yorn, enquanto escreve um comentário sobre o filme Homem de Ferro? Qual é o ponto? Para Tony Stark e suas armas é uma questão de morte e renascimento. É tirar alegres fotos com jovens soldados, que nunca tiveram a chance de questionar para onde estavam indo, só se perguntar se iriam ou não poder comprar o DVD do filme, no caso de ainda terem visão ao voltarem para casa; e então ser subitamente, no meio de um mar de balas, suas próprias filhas, retirado deste mundo, e arrastado pela poeira do deserto, para ser reinserido no útero. É necessário um grupo genérico de terroristas, de olhos frios, homens maus, não tanto quanto velhas senhoras de igreja, para quebrar seu mundo alegre de vinho e o retornar ao buraco escuro da onde veio para repensar a sua vida. E, assim, com um cientista fracassado como consciência e bando de funcionários revoltados do McDonalds lhe apontando suas próprias criações, ele finalmente vê como tudo o que fez até então afetou as massas impotentes que nunca souberam como ejacular para o horizonte.

Tony Stark, então, com um eletrodo em seu peito, a impedir que os estilhaços de sua vida passada acabem com seu coração, tem de construir um novo corpo, para finalmente sair do útero e atirar suas próprias armas. Finalmente se tornar o homem que não só passa o seu tempo inventando novas armas, e degustando jovens jornalistas, mas que também toma responsabilidade por suas criações e sai por aí batendo nos outros que não as usam direito. Deixar de ser só um potencial a oferecer potência a sociedade, e passar a assumir esta potência para si, tomando a responsabilidade por todas as conseqüências do que faz. Claro que isso não é suficiente, para completar sua transição para um novo homem, um homem de ferro, ele também tem de matar o seu pai, aquele que distribui sua potência para qualquer um, e não toma nenhuma responsabilidade, a força que o condicionou a sua vida passada. Isso para poder finalmente assumir sua própria paternidade como um herói. Um homem dono de seu mundo e do mundo ao seu redor, que passa seus dias a criar poder, a mastigar jovens jornalistas, e atirar, ejaculando não só no horizonte, mas também na cara de quem o possa contrariar.

O Homem de Ferro é um bom filme, e já chega com o selo de qualidade de Robert Downey Jr., que além de um bom ator, sabe escolher os papeis que faz. A direção de Jon Favreau, que também faz uma ponta no filme como um dos executivos de Stark, é capaz. E o roteiro é bem equilibrado entre ação, reflexão e emoção, respeitando a história original de Stan Lee, Jack Kirby, Larry Lieber e Don Heck, que já continha toda a trama do filme. Resta ao espectador após obter seu entretenimento, chegar em casa e morrer de vergonha por não ser capaz de construir em seu porão seu próprio propulsor eletromagnético, com capacidade de o levitar no ar.

Na Natureza Humana (filme: Na Natureza Selvagem)

Liberdade. Liberdade é o que todos buscamos. Todos que atingiram pelo menos um certo aspecto de auto-consciência. Liberdade do putrefante organismo a que chamamos de sociedade. Sociedade que não criamos, mas a qual somos totalmente responsáveis, pois nada mais somos que o seu corpo. Àqueles que conseguiram abrir os próprios olhos, sobra a busca, a busca por sonhos, a busca por desejos. Sonhos nossos, não deles. Desejos nossos, não dela.

Into the Wild
é um filme sobre esta busca, dirigido por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer, seguindo a vida de Christopher McCandless. Christopher foi um homem que tinha todos os caminhos que a sociedade oferece ao seu alcance, todos os inúteis caminhos que tantos cegos com um sorriso triste se regojizam a seguir, e que tantos outros literalmente lutam para ter, como se fosse a única opção. E tendo-os em suas mãos, ele disse não. Não a uma fórmula pré-determinada que nada poderia lhe dizer. Não a uma fórmula que milhares tomam como realidade, mas que não passa de uma perversão habitada por monstros.

Christopher
disse não e embarcou numa jornada a única coisa na qual conseguia enxergar uma verdadeira autenticidade: a natureza. A natureza, um belo organismo que não devora, ao contrário, flui, flui em um eterno equilíbrio. Um equilíbrio que nunca parece ser encontrado na pirâmide de inutilidade da sociedade. Pelo caminho, porém, ele foi encontrando outras autenticidades: outros como ele que disseram não, outros que até aceitaram os caminhos a eles impostos, mas encontram formas de distorcê-los a seu benefício, e outros que até foram tomados pela praga, mas que entretanto não a deixaram consumi-los, nem se fizeram de corpos para sua propagação.

O caminho se fez de conclusão, e ao chegar ao seu destino,
Christopher pode finalmente encontrar a si próprio. O bater do vento sobre as folhas das árvores, o descer da água do rio, os animais existindo em sua própria e constante realidade, formaram juntos a composição que lhe permitiu encontrar o seu próprio eu a boiar na essência da vida. O que lhe permitiu aceitar o seu passado, com seus progenitores, sua experiência perante a degradação da sociedade, não mais como um câncer a fazê-lo gritar, mas como tinta a pintar um traço de seu quadro. Não mais uma agressão, mas uma cor, como todas as oferecidas por aqueles que encontrou em seu caminho. Liberdade da única prisão a qual um homem pode ser encarcerado, sua própria mente. Ele encontrou a liberdade por fazer a sua mente, finalmente sua. E na liberdade, a felicidade, por reconhecer toda a tinta que compunha a sua vida. “A felicidade só é real, quando dividida.” Escreveu em um de seus livros.

Trazendo o assunto perto, o que pode ser dito? Nossas cidades, como todas as cidades, são asilos de mortos vivos, onde até os com os olhos mais abertos acabam decaindo a falsidade de se sujeitar aos caminhos mais inúteis. A vida não é feita de cores, mas de títulos: o que eu faço, o que me fazem, a quem eu faço. Não há campo a fugir, não há bucólico, quem neste se encontra está por conseqüência, não escolha, e se degrada tanto quanto. E voltando as cidades, aqueles que não conseguem seguir os caminhos aos outros apresentados, de nada tem consciência, e acabam como fantasmas a comer o excremento dos mortos. Liberdade não é uma verdade, mas um produto a ser consumido. É a liberdade de viver em uma caixa, e sair para outras caixas encontrar outros habitantes de caixas, e dividir com eles as experiências sobre a vida dentro das caixas. O livre não é o que flui pela existência, mas o que consome: eu gosto disso, eu não gosto disso. As pessoas não se pintam umas sobre as outras, elas seguem um roteiro. Um roteiro que de tão mal escrito, só lhes permite clareza ao falar de caixas, ao falar de títulos, ao falar de produtos.


Queria ter a certeza que aquele que decidisse queimar seu dinheiro e abandonar a caixa infestada da praga a que foi sujeitado, não acabaria em um chão frio devorado por mortos, ou por fantasmas. Queria que houvesse um roteiro claro àquele que no meio de tanta degradação, quisesse encontrar outros que também não conseguem fechar os seus olhos. Queria que aquele que tem uma consciência capaz de reconhecer a verdadeira liberdade, não tivesse de se submeter a um mero papel de sobrevivência, em vez de uma verdadeira existência. Queria, por fim, que não se tivesse que nadar pela miséria, mas sim fluir pela natureza.

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Agora no Epicentro Nervoso!

Domingo, Novembro 04, 2007

Um Pó de Estrela na Brisa do Presente (filme: Stardust)

Nenhum amor pelos personagens, nenhum amor pela história, mas muito pelo romance. Herói tem de dar uma volta sobre o mesmo lugar onde sempre esteve para encontrar tudo que sempre quis. Pois, tudo só se decide atravessando a grossa muralha que corta a ilusão, do pó de estrela.

Stardust é um filme dirigido por Matthew Vaughn, baseado numa história de Neil Gaiman. Uma das poucas dele que eu não li, já que não era em si uma história em quadrinhos, só prosa ilustrada, e eu sou relaxado. Segundo filme que vejo baseado em seu trabalho, definitivamente melhor que Mirrormask, o crime contra o Labirinto de Jim Henson, mas nenhum clássico.

A história é sobre um garoto que ama uma imagem que só existe em sua cabeça, imagem que, quem sabe lá porque, imprime sobre a face da garota bonita local. Não a melhor rosa do jardim. E, assim, decide enfrentar uma jornada para provar que essa imagem é real. Jornada não muito complexa por um emaranhado de clichês. Para enfim descobrir o quanto estava errado e finalmente como amar alguém de carne e osso, ou melhor, de pó de estrela. O herói tem de descobrir pela experiência que o verdadeiro amor não é feito não de imagens pré-fabricadas, nem de idéias, mas sim de momentos. Momentos em que todas as dimensões do espaço fazem sentido, o tempo não mais parece importar, nenhum esforço se faz necessário, e o cabelo dos personagens brilha.



E agora, um pouco mais:

Tudo começa com o pai do herói, um conselheiro que sabe correr de velhos anciões. Ele atravessa a muralha entre o reino da ilusão e o lugar mágico. Conhece uma princesa, engravida ela, e nunca liga no dia seguinte. Hum… vejamos. Ela é uma escrava de uma bruxa. Ela diz para ele que a única forma de ganhar liberdade é matando a bruxa. E ela dá a ele uma flor que o deixa imune a bruxarias. Agora, nós sabemos porque ele não é o herói. Nove meses depois, deixam um bebê na porta dele, e ele o cria para ser um abobado com seus conselhos. Então, o abobado cresce e se apaixona pela garota popular da cidade. Sai com ela, já que pagou o jantar. E ela lhe revela que vai casar com o espadachim. Ele, por sua vez, promete lhe trazer um estrela, se ela casar com ele. Ela aceita, já que obviamente é uma prostituta. A estrela caiu do outro lado da muralha, e ele depois de ser surrado pelo velho ancião, descobre a história dos pais. Assim, ganha uma vela que é melhor que cavalgar nas costas de um burrinho, outro presente que muito bem podia também ter sido usado para salvar a princesa, e com ela, cai em cima da estrela. Eles começam a flertar. O abobado, já que está apaixonado pela prostituta, acaba agindo de forma mais decente na frente da estrela. E eles começam uma relação de interesses. Ele quer levar um pedaço dela para a prostituta. Ela quer voltar para o céu, e retomar sua rotina de dormir pelo dia e observar os outros à noite. Obviamente, uma garota festeira tímida.

Enquanto isso, tramas paralelas se desenvolvem. Os filhos do rei, procurando o colar que acertou a estrela, se matam e, já que isso é um filme para crianças, viram fantasmas. Se você quer assassinar personagens de forma perversa e manter seu público infantil, eles têm de aparecer depois como fantasmas cômicos. Fora isso, um trio de irmãs bruxas, vai atrás da estrela para comer seu coração. Como se elas não pudessem dividir o resto do último que tinham, ficar jovens, não usar mais mágica e se entregar a uma vida de incesto.

Tudo se segue, os grupos se encontram, lutam, se matam, nada de muito interessante. O abobado e a estrela acabam num navio de piratas. O navio voa, caso isso importe a alguém. E é claro, depois de ameaças de assassinato e estupro para manter as aparências, todos se abraçam. O abobado finalmente ganha uma figura paterna decente: o pirata afeminado, que finalmente o ensina como ser um homem. E nesse meio tempo, começa a ter momentos de alegria com a estrela. Tudo acaba bem rápido, desde que essa é uma das poucas partes do filme em que eu gosto do clichê. Seguem-se mais confrontamentos, e depois que a estrela se revela apaixonada pelo abobado, ele começa a se libertar das imagens em sua cabeça. Ele ganha um objetivo de vida, ri na cara da prostituta como última prova de ruptura, salva a estrela das bruxas incestuosas, e fim. Ah, ele também vira rei.

E agora, de volta a programação normal:

O amor não é feito de idéias, não é feito de imagens, não é feito de lembranças, nem do passado, nem do futuro, é feito do presente, é feito de momentos eternos que constantemente afluem nesse presente, é feito enfim de emoções.

Copyright @ Daniel Matos, 2007

Quinta-feira, Outubro 25, 2007

Deuses, homens e as mulheres que os documentam (filme: Apocalypse Now - O Apocalipse de um Cineasta)

Junho, 2006


Apocalypse de um Cineasta é um documentário filmado por Eleanor Coppola, sobre a produção do filme Apocalypse Now por seu marido Francis Ford Coppola.

Brilhante é um documentário dirigido por Conceição Senna, sobre a produção do filme Diamante Bruto por seu marido Orlando Senna e sobre a cidade de Lençóis e sua população.

Apocalypse Now e Diamante Bruto. Contrapondo ambos, somos apresentados a dois opostos: em conteúdo, um filme insano, feito por uma mente insana, em oposto a um filme comum, feito por uma mente comum; e em produção, um filme capitalista, feito pelo dinheiro, pai e filho da loucura, em oposto a um filme socialista, feito pelo povo, pai e filho do comum.

Coppola, deus insano, ou homem comum que nos é apresentado com tais contornos, deseja fazer filme baseado no livro Heart of Darkness. História controversa, renegada pelos estúdios e ainda politizada pelo próprio diretor através da inserção em sua trama da guerra do Vietnã, guerra psicológica recém perdida pelo Império. Ele o quer, ele o faz. Com seu próprio dinheiro, investimento milionário provindo do sucesso de filmes anteriores, Coppola assume o papel de Deus criador e parte para fazer seu filme. O dinheiro a tudo compra e a tudo faz. Um pedaço das Filipinas, país em guerra civil, se torna seu estado; sua população, seus escravos; seu exército, seus guerreiros. Tudo organizado, tudo cronometrado, a calmaria antes da tempestade. “Havia muitos de nós, nos tínhamos acesso a equipamentos demais, dinheiro demais, e pouco a pouco nós fomos enlouquecendo.” Poder, poder, poder. Quanto mais poder, mais possibilidade de criação e mais há o desejo de criar. Por que o simples, o pequeno, quando se pode fazer o complexo, o abundante. A tempestade vem, a guerra começa, os helicópteros são levados, a água a tudo draga. Mais e mais o caos toma seu lugar de direito, a loucura domina. Menos de um ano, tornam-se três. Ator morre e ressuscita. O fim não é bom o suficiente, tem de ser mudado. Ícone aparece. O deus do passado caminha sobre o país do presente a improvisar na escuridão. Poder demais, equipamento demais, dinheiro demais. A obesidade se esconde nas sombras, com vergonha, comendo melancia. “O horror! O horror!” O filme é completo, sua empreitada é constantemente ridicularizada, o diretor está falido. Sucesso, o filme é genial, se paga em poucas semanas. O dinheiro dá de comer ao dinheiro. A loucura é controlada.

“Você já viu o filme Apocalypse Now?”

“Sim, algumas vezes.”

Senna, homem comum, que nasce, cresce, se reproduz e morre, deseja fazer filme em sua cidade natal, Lençóis, na Chapada Diamantina. História, qualquer uma; acaba por ser a de um autor do próprio lugar; socialmente controversa para a época, politicamente, nula. Ele o quer, ele consegue algum investimento, ele o faz. Com a colaboração de todo o povo da cidade, Senna, como homem comum, coordena outros homens comuns para fazer o filme comum. Todos aparecem em tela, todos se sentem especiais por alguns segundos. O que é simples, se mantém simples. O filme é completo, todos assistem alegremente suas aparições.

“Você já viu o filme Diamante Bruto?”

“Quê?”

Um homem tem mais chance de mudar a sociedade pela busca de um sucesso individual, do que pela busca de um sucesso coletivo. Apocalypse Now é lembrado e assistido, não por ser um filme que vem do centro do Império, mas porque é um filme sobre a loucura, o desespero, o horror, os mais comuns sentimentos humanos, sentimentos atemporais. O filme, mesmo longe da perfeição, faz efeito por ser fruto desta própria loucura, desespero e horror, que dominam o processo de criação, dançando alegremente com o poder do dinheiro, com o deus obeso que se esconde nas sombras. Diamante Bruto é completamente desconhecido, não por ser um filme das periferias do Império, mas porque é um filme comum, ficcional, sobre sentimentos fictícios. O filme não faz efeito, pois o homem comum é uma ficção histórica, que é dependente desta, sendo, logo, temporal.




Apocalypse de um Cineasta é fruto de uma distração, proposta por Coppola, a sua esposa, para esta passar o tempo durante as filmagens. Não tendo originalmente razões de criação e só vindo a ser montado como documentário anos mais tarde por outros. Porém, servindo perfeitamente como relato vivo da produção do filme, documentando desdo cotidiano do trabalho à momentos pessoais. Fazendo efeito, em muito, por sua falta de compromisso com um produto final, sua liberdade de não limitar o conteúdo a fins públicos, mas sim, a pessoais.

Brilhante é fruto recente de um projeto de Conceição Senna de mostrar como o cinema pode modificar uma cidade. Não necessariamente se dedicando a documentar o filme, mas sim, a relação entre este e o povo da cidade. Contando com muito pouco material filmado na época, se apoiando mais em entrevistas atuais. O filme busca mostrar a suposta modificação de Lençóis produzida pelo filme Diamante Bruto e acaba sofrendo do mesmo problema deste, ficando preso a uma interpretação limitada da ficção histórica. Pois, não há mudança, Lençóis só passa de cidade abandonada à cidade abandonada com turistas e sua população, de catadores de diamantes à servos de estranhos. Nada que não tenha acontecido com muitas outras cidades interiores brasileiras, tendo no máximo o filme intensificado esse processo e mais nada. Não houve modificação social, e a questão do filme ser tão bem lembrado pelos habitantes da cidade mostra isso perfeitamente, pois este provavelmente foi a coisa mais interessante já feita por eles, que em si, se mantiveram inalterados na sua vida comum e ficcional. Ninguém, nem mesmo a atriz principal do filme original, que foi levada embora como lembrança por um suíço, se modificou, ou evoluiu de qualquer forma como ser humano. E o mesmo desejo de fuga para algo melhor, algo distante, se mantém presente nos que ainda têm olhos para ver. Por fim, a diretora querendo reproduzir o suposto efeito do filme original de modificação, clama pelo reconhecimento dos mineradores que não se adaptaram a nova forma de servidão, como se esta tivesse alguma diferença da anterior.

“O horror! O horror!” ecoa ainda pelo tempo, enquanto os deuses dormem, os homens caminham e suas mulheres documentam. Só Francis Ford Coppola, deus insano, ou homem comum nos vendido como tal, se sobressai nesse quadro para fora da ficção histórica. Esta que se faz presente até na apresentação dos agentes que são aqui comentados, homens que fazem filmes e mulheres que os documentam, um fragmento explicito de uma sociedade ainda patriarcal. Fragmento também só quebrado por Coppola, o deus que dorme, através de sua prole, Sofia Coppola, que assume atualmente natureza divina.


Copyright @ Daniel Matos, 2006

Sábado, Outubro 13, 2007

Clássicos do Século XXI: Do Labirinto ao Eclipse