Quarta-feira, Novembro 12, 2008
Tony Stark não tem um vizinho tocando funk em uma de suas janelas, outro tocando forró na outra, e o esgoto passando por baixo de seu chão. Não! Nem passa o tempo vendo filmes, assistindo tevê, indo para lugares insólitos fazer coisas para outros, ou escutando outros lhe falando o completo inútil. Não! Ele acorda e faz armas. Ele acorda e expande a sua mente ao horizonte. Tony Stark é dono de seu mundo! Quando não está construindo a realidade ao seu redor, ele sai e a divide com o resto, aproveitando o meio tempo para saborear jovens jornalistas com um bom vinho.
Mas qual é o ponto de construir mísseis, se você não tem a chance de atirá-los? Qual é o ponto de comer pizza, escutando o último cd de Pete Yorn, enquanto escreve um comentário sobre o filme Homem de Ferro? Qual é o ponto? Para Tony Stark e suas armas é uma questão de morte e renascimento. É tirar alegres fotos com jovens soldados, que nunca tiveram a chance de questionar para onde estavam indo, só se perguntar se iriam ou não poder comprar o DVD do filme, no caso de ainda terem visão ao voltarem para casa; e então ser subitamente, no meio de um mar de balas, suas próprias filhas, retirado deste mundo, e arrastado pela poeira do deserto, para ser reinserido no útero. É necessário um grupo genérico de terroristas, de olhos frios, homens maus, não tanto quanto velhas senhoras de igreja, para quebrar seu mundo alegre de vinho e o retornar ao buraco escuro da onde veio para repensar a sua vida. E, assim, com um cientista fracassado como consciência e bando de funcionários revoltados do McDonalds lhe apontando suas próprias criações, ele finalmente vê como tudo o que fez até então afetou as massas impotentes que nunca souberam como ejacular para o horizonte.
Tony Stark, então, com um eletrodo em seu peito, a impedir que os estilhaços de sua vida passada acabem com seu coração, tem de construir um novo corpo, para finalmente sair do útero e atirar suas próprias armas. Finalmente se tornar o homem que não só passa o seu tempo inventando novas armas, e degustando jovens jornalistas, mas que também toma responsabilidade por suas criações e sai por aí batendo nos outros que não as usam direito. Deixar de ser só um potencial a oferecer potência a sociedade, e passar a assumir esta potência para si, tomando a responsabilidade por todas as conseqüências do que faz. Claro que isso não é suficiente, para completar sua transição para um novo homem, um homem de ferro, ele também tem de matar o seu pai, aquele que distribui sua potência para qualquer um, e não toma nenhuma responsabilidade, a força que o condicionou a sua vida passada. Isso para poder finalmente assumir sua própria paternidade como um herói. Um homem dono de seu mundo e do mundo ao seu redor, que passa seus dias a criar poder, a mastigar jovens jornalistas, e atirar, ejaculando não só no horizonte, mas também na cara de quem o possa contrariar.
O Homem de Ferro é um bom filme, e já chega com o selo de qualidade de Robert Downey Jr., que além de um bom ator, sabe escolher os papeis que faz. A direção de Jon Favreau, que também faz uma ponta no filme como um dos executivos de Stark, é capaz. E o roteiro é bem equilibrado entre ação, reflexão e emoção, respeitando a história original de Stan Lee, Jack Kirby, Larry Lieber e Don Heck, que já continha toda a trama do filme. Resta ao espectador após obter seu entretenimento, chegar em casa e morrer de vergonha por não ser capaz de construir em seu porão seu próprio propulsor eletromagnético, com capacidade de o levitar no ar.
Liberdade. Liberdade é o que todos buscamos. Todos que atingiram pelo menos um certo aspecto de auto-consciência. Liberdade do putrefante organismo a que chamamos de sociedade. Sociedade que não criamos, mas a qual somos totalmente responsáveis, pois nada mais somos que o seu corpo. Àqueles que conseguiram abrir os próprios olhos, sobra a busca, a busca por sonhos, a busca por desejos. Sonhos nossos, não deles. Desejos nossos, não dela.Into the Wild é um filme sobre esta busca, dirigido por Sean Penn, baseado no livro de Jon Krakauer, seguindo a vida de Christopher McCandless. Christopher foi um homem que tinha todos os caminhos que a sociedade oferece ao seu alcance, todos os inúteis caminhos que tantos cegos com um sorriso triste se regojizam a seguir, e que tantos outros literalmente lutam para ter, como se fosse a única opção. E tendo-os em suas mãos, ele disse não. Não a uma fórmula pré-determinada que nada poderia lhe dizer. Não a uma fórmula que milhares tomam como realidade, mas que não passa de uma perversão habitada por monstros.
Christopher disse não e embarcou numa jornada a única coisa na qual conseguia enxergar uma verdadeira autenticidade: a natureza. A natureza, um belo organismo que não devora, ao contrário, flui, flui em um eterno equilíbrio. Um equilíbrio que nunca parece ser encontrado na pirâmide de inutilidade da sociedade. Pelo caminho, porém, ele foi encontrando outras autenticidades: outros como ele que disseram não, outros que até aceitaram os caminhos a eles impostos, mas encontram formas de distorcê-los a seu benefício, e outros que até foram tomados pela praga, mas que entretanto não a deixaram consumi-los, nem se fizeram de corpos para sua propagação.
O caminho se fez de conclusão, e ao chegar ao seu destino, Christopher pode finalmente encontrar a si próprio. O bater do vento sobre as folhas das árvores, o descer da água do rio, os animais existindo em sua própria e constante realidade, formaram juntos a composição que lhe permitiu encontrar o seu próprio eu a boiar na essência da vida. O que lhe permitiu aceitar o seu passado, com seus progenitores, sua experiência perante a degradação da sociedade, não mais como um câncer a fazê-lo gritar, mas como tinta a pintar um traço de seu quadro. Não mais uma agressão, mas uma cor, como todas as oferecidas por aqueles que encontrou em seu caminho. Liberdade da única prisão a qual um homem pode ser encarcerado, sua própria mente. Ele encontrou a liberdade por fazer a sua mente, finalmente sua. E na liberdade, a felicidade, por reconhecer toda a tinta que compunha a sua vida. “A felicidade só é real, quando dividida.” Escreveu em um de seus livros.
Trazendo o assunto perto, o que pode ser dito? Nossas cidades, como todas as cidades, são asilos de mortos vivos, onde até os com os olhos mais abertos acabam decaindo a falsidade de se sujeitar aos caminhos mais inúteis. A vida não é feita de cores, mas de títulos: o que eu faço, o que me fazem, a quem eu faço. Não há campo a fugir, não há bucólico, quem neste se encontra está por conseqüência, não escolha, e se degrada tanto quanto. E voltando as cidades, aqueles que não conseguem seguir os caminhos aos outros apresentados, de nada tem consciência, e acabam como fantasmas a comer o excremento dos mortos. Liberdade não é uma verdade, mas um produto a ser consumido. É a liberdade de viver em uma caixa, e sair para outras caixas encontrar outros habitantes de caixas, e dividir com eles as experiências sobre a vida dentro das caixas. O livre não é o que flui pela existência, mas o que consome: eu gosto disso, eu não gosto disso. As pessoas não se pintam umas sobre as outras, elas seguem um roteiro. Um roteiro que de tão mal escrito, só lhes permite clareza ao falar de caixas, ao falar de títulos, ao falar de produtos.
Queria ter a certeza que aquele que decidisse queimar seu dinheiro e abandonar a caixa infestada da praga a que foi sujeitado, não acabaria em um chão frio devorado por mortos, ou por fantasmas. Queria que houvesse um roteiro claro àquele que no meio de tanta degradação, quisesse encontrar outros que também não conseguem fechar os seus olhos. Queria que aquele que tem uma consciência capaz de reconhecer a verdadeira liberdade, não tivesse de se submeter a um mero papel de sobrevivência, em vez de uma verdadeira existência. Queria, por fim, que não se tivesse que nadar pela miséria, mas sim fluir pela natureza.